trabalhos selecionados.

selected
works.

1.
concerto curto para os últimos 74s de topsy, 1902.
short concert for the last 74s of topsy, 1902.

“Concerto curto para os últimos 74 segundos de Topsy” nasce da leitura de Maneiras de Ser, de James Bridle, que explora as relações entre humanos e outras formas de vida, dentro de uma perspectiva pós-humanista. Em uma das passagens, o autor relata a história de Topsy, uma elefanta real cuja morte filmada, possivelmente a primeira registrada cinematograficamente no ocidente, pela companhia de cinema de Thomas Edison. A partir desse filme mudo, surge a ideia de criar um réquiem para esse momento mórbido. Utilizando-se do software Max, os movimentos dos pixels do vídeo são convertidos em parâmetros sonoros, resultando numa composição que acompanha a imagem. O trabalho se torna, assim, uma espécie de documentário sonoro sobre a vida, e a morte de Topsy.
"Short Concerto for the Last 74 Seconds of Topsy" originates from reading Ways of Being by James Bridle, which explores the relationships between humans and other forms of life from a posthumanist perspective.
In one passage, the author recounts the story of Topsy, a real elephant whose filmed death, possibly the first captured cinematically in the West, was recorded by Thomas Edison’s film company.
From this silent film comes the idea of creating a requiem for that morbid moment. Using the software Max, the movements of the video’s pixels are converted into sonic parameters, resulting in a composition that accompanies the image.
The work thus becomes a kind of sonic documentary about the life and death of Topsy.

2.
depois de mario de andrade, vitor bossa.
after mario de andrade, vitor bossa.

2025-26 / texto / fotografia / som / video (3'06").
text / photography / sound / video (3’06”).
Veneza or Not Veneza, 1927

Coleção de fotos antigas em preto e branco de Veneza em diferentes locais e edificações, incluindo canais, pontes, edifícios históricos e cenas urbanas.

fotografia / photography. 70x100cm.

Carta escrita por Mario de Andrade em 1927, descrevendo sua experiência de viagem a Santarém, incluindo detalhes sobre a cidade, as pessoas e a cultura local.

texto / text.

Esta obra é uma operação de ficção de arquivo. Parte de uma fissura no registro objetivo de Mário de Andrade em O Turista Aprendiz (1927), especificamente o momento em que ele confunde Santarém com Veneza, para explorar o caráter construído e falível da memória e da documentação.
O trabalho segue um protocolo de contaminação, adulterando as camadas de registro da viagem de Mário de Andrade (texto, som, imagem e vídeo) para gerar um derivado ficcional verossímil. O procedimento dialoga com a noção de "efabulação", tal como discutida por Donna Haraway, que a entende não como falsidade, mas como uma ferramenta crítico-narrativa para recontar o passado e especular sobre futuros possíveis.
O resultado é um artefato documental composto que funciona como um sistema de prova para uma narrativa alternativa: a construção de um lugar fake, uma Santarém-Veneza agora integrada à biografia do autor. A obra, assim, questiona a autoridade do arquivo, atuando no duplo movimento de homenagear e infectar a memória do modernista. Propõe que toda história é, em alguma medida, uma ficção sustentada por suas provas. O que se vê, ouve e lê é a comprovação cuidadosamente forjada de uma verdade construída.
A obra foi exibida na exposição "Escuta Aqui" (Paço das Artes, São Paulo, 2026).
This work is an operation of archive fiction. It originates from a fissure in the objective record of Mário de Andrade's O Turista Aprendiz (1927), specifically the moment he mistakes Santarém for Venice, to explore the constructed and fallible nature of memory and documentation.
The work follows a protocol of contamination, adulterating the layers of Mário de Andrade's journey record (text, sound, image, and video) to generate a verisimilar fictional derivative. The procedure dialogues with the notion of "fabulation", as discussed by Donna Haraway, who understands it not as falsehood, but as a critical-narrative tool for retelling the past and speculating on possible futures.
The result is a composite documentary artifact that functions as a proof system for an alternative narrative: the construction of a fake place, a Santarém-Venice now integrated into the author's biography. The work thus questions the authority of the archive, acting in the dual movement of honoring and infecting the modernist's memory. It proposes that all history is, to some extent, a fiction sustained by its proofs. What one sees, hears, and reads is the carefully forged evidence of a constructed truth.
The work was exhibited in the show "Escuta Aqui" (Paço das Artes, São Paulo, 2026).

3.
clair de lune / interações.
clair de lune /
interactions.

Esta série utiliza o ambiente de programação Max/MSP como agente reinterprete. Partindo da obra icônica Clair de lune (1890), de Claude Debussy, o trabalho submete a peça a processos sistemáticos de distorção, ruído e fragmentação.
A operação propõe uma ressignificação musical que é, também, uma reflexão sobre a memória na era digital. Assim como lembranças são corrompidas, recombinadas e recontextualizadas, o som original é dissolvido e reconfigurado pela lógica algorítmica. O gesto crítico reside no fato de a reinterpretação não ser mediada pela subjetividade de um musicista, mas pelos parâmetros objetivos e possíveis glitches de uma máquina.
A Clair de Lune original, um símbolo cultural carregado de convenções, é transformado em um índice puro de seu próprio processamento: o som que se ouve é o rastro digital, a evidência de sua interação com o software. Esse método ecoa a noção proposta por Carl Dahlhaus, para quem a compreensão de uma obra pode emergir não apenas de sua execução, mas de sua decomposição ativa e do exame de seus elementos constitutivos.
O resultado são três versões que atuam como registros de uma performance não-humana. Elas questionam a permanência inalterada do cânone e propõem que, na era digital, a memória cultural é inevitavelmente um arquivo processual, aberto à corrupção e à reescrita.
This series uses the Max/MSP programming environment as a reinterpreting agent. Starting from the iconic work Clair de lune (1890) by Claude Debussy, the piece subjects the composition to systematic processes of distortion, noise, and fragmentation.
The operation proposes a musical resignification that is also a reflection on memory in the digital age. Just as memories are corrupted, recombined, and recontextualized, the original sound is dissolved and reconfigured by algorithmic logic. The critical gesture lies in the fact that the reinterpretation is not mediated by the subjectivity of a musician, but by the objective parameters and potential glitches of a machine.
The original Clair de Lune, a cultural symbol laden with conventions, is transformed into a pure index of its own processing: the sound that is heard is the digital trace, the evidence of its interaction with the software. This method echoes the notion proposed by Carl Dahlhaus, for whom the understanding of a work can emerge not only from its performance but from its active decomposition and the examination of its constituent elements.
The result is three versions that act as records of a non-human performance. They question the unaltered permanence of the canon and propose that, in the digital age, cultural memory is inevitably a procedural archive, open to corruption and rewriting.

4.
uma e três cadeiras.
one and three chairs.

2025 / apropriação / som (10’26”) / fotografia / cadeira.
appropriation / sound (10’26”) / photography / chair.

Desenho de duas cadeiras, uma ao centro, uma na parte esquerda, e dois alto-falantes ao lado direito. A cadeira central é simples e sem braços.
Duas cadeiras de madeira, uma apoiada em uma caixa de madeira e a outra ao centro, com uma sombra projetada na parede atrás, ao lado de um quadro com texto explicativo na parede.
“Uma e três cadeiras” é um trabalho de apropriação baseado na obra homônima de Joseph Kosuth, de 1965.
Na versão de Vitor Bossa, a proposta é atualizada e transposta para a contemporaneidade. 
Se na obra original temos, respectivamente, a fotografia de uma cadeira, a própria cadeira e o verbete de dicionário, aqui encontra-se: a fotografia de uma cadeira (feita em um estúdio de som), a cadeira usada na gravação, e caixas de som, por onde se ouve uma composição criada a partir dos sons da própria cadeira.
A peça sonora dialoga com a música concreta de Pierre Schaeffer, formando um triângulo conceitual entre os três artistas. a composição foi gerada a partir de ruídos captados da cadeira fotografada e processados via programação no software Max, utilizando parâmetros de randomização.
A estrutura sonora remete ao formato de um verbete: inicia-se com sons “puros” da cadeira, aumenta-se gradualmente a densidade e variação timbrística conforme o software gera autonomamente novas possibilidades.
"One and Three Chairs" is an appropriation-based work inspired by the homonymous piece by Joseph Kosuth from 1965.
In Vitor Bossa's version, the proposal is updated and transposed into contemporary times.
While the original work presents, respectively, a photograph of a chair, the actual chair, and a dictionary entry, here we find: a photograph of a chair (taken in a sound studio), the chair used in the recording, and loudspeakers through which a composition created from the sounds of the chair itself is played.
The sound piece dialogues with the musique concrète of Pierre Schaeffer, forming a conceptual triangle among the three artists. The composition was generated from noises captured from the photographed chair and processed via programming in the software Max, using randomization parameters.
The sonic structure echoes the format of a dictionary entry: it begins with "pure" sounds of the chair, gradually increasing in density and timbral variation as the software autonomously generates new possibilities.

5.
naquele dia, o fim de algo / às falsas simetrias.
on that day, something has ended / to the faux symmetries.

2024 / som (33’29”) / apropriação / gravador / cadeira / fones.
sound (33’29") / appropriation / recorder / chair / headphones.

“Naquele dia, o fim de algo / às falsas simetrias”explora a suspensão do tempo, criando uma atmosfera em que a percepção temporal se dissolve. trata-se de uma faixa de áudio construída a partir de um texto, uma peça para piano e gravações de campo. Como um filme sem imagens. 
O texto se apropria de Crônicas do Pássaro de Corda (Haruki Murakami, 1994) e, ao ser traduzido repetidamente, ganha novos sentidos. 
A música surge de loops de piano elétrico, enquanto as gravações de campo evocam cortes secos, típicos da linguagem cinematográfica. assim, reúnem-se texto/roteiro, música/trilha e imagem.
A peça foi masterizada em fita cassete com colaboração de Arthur Joly e apresentada com um gravador e uma cadeira. durante a gravação, o som se transforma continuamente por 30 minutos, sofrendo interferências de feedback até se desfazer.
	
“On that day, the end of something / to the faux symmetries” explores the suspension of time, creating an atmosphere where temporal perception dissolves. It is an audio track built from a text, a piano piece, and field recordings. Like a film without images.
The text appropriates The Wind-Up Bird Chronicle (Haruki Murakami, 1994) and, through repeated translation, gains new meanings.
The music emerges from electric piano loops, while the field recordings evoke sharp cuts typical of cinematic language. In this way, text/script, music/soundtrack, and image are brought together.
The piece was mastered on cassette tape with the collaboration of Arthur Joly and presented with a tape recorder and a chair. During the recording, the sound continuously transforms for 30 minutes, succumbing to feedback interference until it dissolves.

6.
space hypothesis.

“space hypothesis” é um trabalho audiovisual sinestésico, no qual som e imagem se complementam em uma relação simbiótica.
Nesta peça específica, grande parte da música é gerada por um patch no Max que processa a Suite nº 1 para Violoncelo, de Bach. A isso somam-se notas vocais cantadas por Viviane Rocha, que são posteriormente processadas por síntese.
O vídeo nasce de modo semelhante. Sua base é uma filmagem em 16mm de uma paisagem. Por meio de processamento no Max, síntese de vídeo e repetidos envios e downloads para forçar a compressão da imagem, o resultado é essa experiência áudio-reativa. A obra explora a degradação e a transformação de ambas as mídias, criando um artefato digital único, no qual referências clássicas são desconstruídas e renascem em uma nova linguagem híbrida.
Criada em colaboração com a artista Viviane Rocha, a peça foi apresentada no Sound/Image Festival 2025, na Universidade de Greenwich em Londres, e no PinkYou Fest 2025, no Acker Stadt Palast em Berlim.
“Space Hypothesis” is a synesthetic, audiovisual work where sound and image complement each other in a symbiotic relationship.
In this specific piece, much of the music is generated by a Max patch that processes Bach’s Cello Suite No. 1. This is joined by vocal notes sung by Viviane, which are subsequently processed via synthesis.
The video is born in a similar way. Its foundation is a 16mm film of a landscape. Through processing in Max, video synthesis, and repeated uploads and downloads to force image compression, the result is this audio-reactive experience. The work explores the degradation and transformation of both media, creating a unique digital artifact where classical references are deconstructed and reborn in a new, hybrid language.
Created in collaboration with artist Viviane Rocha, the piece was selected at the Sound/Image Festival 2025 at the University of Greenwich in London and at PinkYou Fest 2025 at the Acker Stadt Palast in Berlin.

7.
reminiscências de um piano.
piano reminiscences.

2024-26 / som / trabalho em andamento.
sound / work in progress.

Uma peça que investiga a memória como um processo ativo de corrupção e ressignificação. Partindo de gestos  simples, a composição os submete a ciclos de repetição e transformação gradual, onde micro-alterações: desafinações, ressonâncias extraídas, a adição de ruído  atuam como metáfora sonora do esquecimento e da reelaboração das lembranças.
O piano é tratado não como um instrumento, mas como um corpo que acumula tempo. Seus sons mesclam-se a camadas de processamento digital como "filtros" de percepção e embaralhamento da memória. A obra evoca a ideia de uma transmissão horizontal de experiências sonoras, onde um fragmento, ao ser reprocessado, ganha novas características e resistências, assim como as memórias se modificam ao serem revividas ou contadas.
A peça é um exercício de arqueologia especulativa. Ela pergunta como soaria a memória de um piano que esquece seu próprio timbre, e aceita a impossibilidade de retornar a um estado puro. O que resta é um eco.
Notas Sobre Reminiscências de um Piano

Como se fosse uma cena onde, a cada repetição, os objetos fossem, aos poucos, mudando de lugar. Até que, dessa maneira, o sentido lógico ou narrativo da cena mudasse, sem que fosse percebido.
Existe o presente como instante no tempo para a memória?
Ao meu ver, a memória vive num estado posterior. Uma espécie de registro do tempo-espaço através dos filtros dos sentidos.
A questão é: voltar ao estado puro da memória seria voltar a um presente já passado. Não somente no tempo, mas também quanto à experiência do que éramos naquele instante. Parece um esforço tanto quanto impossível.
Voltar a um lugar já estado, voltar a uma pessoa já conhecida, de certa maneira é sobrepor camadas de existência.
O que seriam os sons e as imagens senão os aparatos técnicos de registro?
Talvez as memórias guardadas somente através da experiência, se e quando transmitidas, tivessem camadas a mais de magia ao somarem-se às experiências de quem as recebe.
As memórias parecem agir como um dispositivo de Transmissão Horizontal Genética. A soma das memórias, as nossas e as de outras pessoas, como uma cascata de experiências vividas, não vividas e criadas ou fantasiadas. De maneira muito semelhante, é assim que as bactérias criam e transmitem resistência a certas medicações entre seus descendentes não diretos. Talvez assim tentemos criar resistência ao esquecimento ou ao embaralhamento inevitável da matéria orgânica.
Pergunto-me, então, se os pianos lembram de todas as músicas que já tocaram. Pergunto-me se os pianos têm alguma consciência sobre seu próprio timbre à medida que envelhecem e desafinam, da mesma maneira que nos aparecem as dores na lombar e a falta de acuidade auditiva. Pergunto-me se os pianos, ao somarem idades, esquecem seu próprio som, assim como esquecemos os nomes das pessoas queridas.
Estamos a esquecer, ao longo do tempo, numa constante, quem e o que somos.
Assim como as memórias se fundem umas às outras, sejam elas nossas ou não.
Questiono-me se a memória em seu estado mais puro, se a memória no instante presente, seria a semente de todas as outras memórias ainda por nascer.
A piece that investigates memory as an active process of corruption and re-signification. Starting from simple gestures, the composition subjects them to cycles of repetition and gradual transformation, where micro-alterations: detunings, extracted resonances, the addition of noise act as a sonic metaphor for forgetting and the re-elaboration of memories.
The piano is treated not as an instrument, but as a body that accumulates time. Its sounds blend with layers of digital processing, acting as "filters" of perception and scrambling of memory. The work evokes the idea of a horizontal transmission of sonic experiences, where a fragment, upon being reprocessed, gains new characteristics and resistances, just as memories are modified when relived or recounted.
The piece is an exercise in speculative archeology. It asks what the memory of a piano that forgets its own timbre would sound like, and accepts the impossibility of returning to a pure state. What remains is an echo.
Notes on the Reminiscences of a Piano
As if it were a scene where, with each repetition, objects gradually shift their places. Until, in this way, the logical or narrative meaning of the scene changes without being noticed.
Does the present exist as an instant in time for memory?
In my view, memory exists in an afterwards state. A kind of recording of time-space through the filters of the senses.
The question is: to return to the pure state of memory would be to return to a present already passed. Not only in time, but also regarding the experience of who we were in that instant. It seems an effort as impossible as it is immense.
To return to a place already visited, to return to a person already known, is in a way to overlay layers of existence.
What would sounds and images be if not technical recording devices?
Perhaps memories preserved solely through experience, if and when transmitted, would carry an extra layer of magic as they merge with the experiences of those who receive them.
Memories seem to act as a device of Horizontal Genetic Transmission. The sum of memories, our own and those of others, like a cascade of lived, unlived, and created or imagined experiences. In a very similar way, this is how bacteria create and transmit resistance to certain medications among their non-direct descendants. Perhaps this is how we try to build resistance to the inevitable forgetting or scrambling of organic matter.
I wonder, then, if pianos remember all the music they have ever played. I wonder if pianos have any awareness of their own timbre as they age and go out of tune, just as lower back pain and diminished hearing acuity appear in us. I wonder if pianos, as they accumulate years, forget their own sound, just as we forget the names of dear ones.
We are forgetting, over time, in a constant, who and what we are.
Just as memories merge with one another, whether they are ours or not.
I question whether memory in its purest state, whether memory in the present instant, would be the seed of all memories yet to be born.

8.
j.brahms. piano sonata no.3 in f minor op. 5 II. andante. andante espressivo.

2025 / som (3’28”)
sound (3’28”)

Esta obra é um estudo espectral que toma o Andante espressivo de Brahms (Sonata Op. 5) como matéria-prima. Através de um sistema criado no Max/MSP, a gravação original é analisada e transformada, gerando uma nova paisagem sonora a partir de seus próprios componentes.
O método trabalha com a desmontagem do som. Algoritmos decompõem o piano de Brahms em suas frequências fundamentais, harmônicos e ressonâncias. Esses elementos são então regenerados e reorganizados criando texturas em constante transformação.
Tristan Murail propôs uma escuta focada no interior do som, em seu espectro de frequências e em suas transformações lentas. Aqui, aplica-se essa lógica não a sons sintéticos, mas à peça de Brahms como um corpo acústico a ser dissecado e remodelado.
O resultado é uma derivação onírica-algorítmica. A memória da obra persiste como um espectro, um conjunto de relações tonais e tímbricas reprocessadas. A obra investiga o que acontece quando a arquitetura de uma sonata é desfeita e recomposta pelas lógicas da escuta micro-acústica e do processamento digital.
This work is a spectral study that takes Brahms' Andante espressivo (Sonata Op. 5) as its raw material. Through a system created in Max/MSP, the original recording is analyzed and transformed, generating a new soundscape from its own components.
The method works with the disassembly of sound. Algorithms decompose Brahms' piano into its fundamental frequencies, harmonics, and resonances. These elements are then regenerated and reorganized, creating textures in constant transformation.
Tristan Murail proposed a listening focused on the interior of sound, on its frequency spectrum, and on its slow transformations. Here, this logic is applied not to synthetic sounds, but to Brahms' piece as an acoustic body to be dissected and remodeled.
The result is an oneiric-algorithmic derivation. The memory of the work persists as a specter, a set of reprocessed tonal and timbral relationships. The work investigates what happens when the architecture of a sonata is undone and recomposed by the logics of micro-acoustic listening and digital processing.

9.
au clair de la lune -1860.

1860 - 2026 / instalação / luz / 22 acetatos / gancho de metal / sombra.
installation / light / 22 acetates / metal hook / shadow.

Esboço técnico de uma iluminação de estúdio com um projetor em tripé apontado para uma parede, projetando uma imagem de uma maçã em um quadro na parede.
Desenho de uma folha e um ramo feitos com linhas contínuas.
Desenho de linhas pretas e caóticas formando uma forma abstrata
"Au Clair De La Lune – 1860" surge da pesquisa do artista sobre os dispositivos mais antigos de registro sonoro e visual.
No Ocidente, a primeira gravação de som conhecida remonta a 1860, criada pelo inventor francês Édouard-Léon Scott de Martinville com seu fonoautógrafo. A gravação capturou a canção tradicional "Au Clair de la Lune".
O fonoautógrafo funcionava inscrevendo ondas sonoras em papel ou vidro revestidos com fuligem. Ironicamente, o aparelho podia registrar o som, mas não reproduzí-lo, ou seja, desde sua origem, o som já era traduzido em imagem.
A partir desse registro histórico, Vitor Bossa cria uma composição de 22 segundos que reinterpreta a melodia original de 1860. Utilizando um piano preparado e loops de feedback em fita magnética, uma homenagem a Karlheinz Stockhausen, entrelaçando diferentes temporalidades e referências sonoras, fundindo passado e presente.
O áudio é então transformado novamente em imagem por meio de um patch  no software Max, que traça visualmente a forma de onda do som. Esse processo retorna à ironia original do fonoautógrafo: um objeto sonoro feito apenas de imagens, inaudível ao ouvido, mas passível de interpretação por seus vestígios gráficos. A série completa é composta por 1.340 imagens.
“Au Clair De La Lune – 1860” originates from the artist’s research into the earliest devices for sound and visual recording.
In the West, the first known sound recording dates back to 1860, created by French inventor Édouard-Léon Scott de Martinville using his phonautograph. The recording captured the traditional song “Au Clair de la Lune.”
The phonautograph functioned by inscribing sound waves onto paper or glass coated with lampblack. Ironically, this device could record sound but not play it back, meaning sound was, from its very inception, translated into image.
Drawing from this historical recording, Vitor Bossa creates a 22-second composition that reinterprets the original 1860 melody. It employs a prepared piano and tape feedback loops, paying homage to Karlheinz Stockhausen. The piece intertwines different temporalities and sonic references, merging past and present in a single poetic gesture.
The audio is then transformed back into image using a custom-coded patch in Max software, which visually traces the sound’s waveform. This process returns to the original irony of the phonautograph: a sound object made solely of images, inaudible to the ear yet open to interpretation through its graphic traces. The complete series consists of 1,340 images.
Traçada de linhas pretas irregularmente curvas e cruzadas em um fundo branco.

10.
estudo de composição eletrônica.
a empatia das portas automáticas. tentativa nº6
.
electronic composition study.
the empathy of automatic doors.
attempt nº.6.

2025-26 / som (6’00").
sound (6’00").

A saturação atencional e a lógica do acúmulo como condições estéticas contemporâneas. A partir de um título propositalmente burocrático e serial, o trabalho evita o desenvolvimento temático linear, optando por uma estratégia de sobreposição e condensação.

Camadas sonoras, field recordings processados, sons sintetizados, resíduos de sinais e texturas são introduzidas e mantidas, acumulando-se sem resolução. O ouvido é confrontado não com uma narrativa, mas com uma paisagem de informações simultâneas, que se densifica progressivamente. O resultado é uma distorção da percepção temporal: os seis minutos de duração parecem estender-se, devido à quantidade de material auditivo compactado.

"Empatia das portas automáticas" refere-se à expectativa de um gesto (abrir/fechar) que nunca se conclui satisfatoriamente, à repetição sem objetivo afetivo e à interface que promete interação, mas opera por lógicas impessoais. A peça traduz essa sensação em termos sonoros, criando uma atmosfera onde os eventos não se desdobram, mas coexistem e competem pela atenção.

À sobrecarga organizada, à sua própria gramática.
Attentional saturation and the logic of accumulation as contemporary aesthetic conditions. Starting from a deliberately bureaucratic and serial title, the work avoids linear thematic development, opting instead for a strategy of superimposition and condensation.

Sound layers — processed field recordings, synthesized sounds, signal residues, and textures — are introduced and maintained, accumulating without resolution. The ear is confronted not with a narrative, but with a landscape of simultaneous information, which progressively densifies. The result is a distortion of temporal perception: the six minutes of duration seem to extend due to the quantity of compacted auditory material.

"The empathy of automatic doors" refers to the expectation of a gesture (opening/closing) that never satisfactorily concludes, to repetition without affective purpose, and to the interface that promises interaction but operates by impersonal logics. The piece translates this sensation into sonic terms, creating an atmosphere where events do not unfold, but coexist and compete for attention.

To the organized overload, to its own grammar.

11.
sem título e/ou quantos gramas pesam os reflexos?
untitled and/or how many grams do reflections weigh?

2024-26 / imagem impressa sob papel algodão (1x1m/cada).
image printed on cotton paper (1x1/each).

Imagem de fundo com cores suaves e desfocadas, predominando tons de verde e azul.
Imagem em tons de cinza com uma textura granular, sem elementos ou objetos visíveis
Imagem desfocada com cores verdes, cinza e azul, sem elementos reconhecíveis.
Imagem desfocada com tons de verde, azul e cinza, sem elementos reconhecíveis.
imagem desfocada com cores azul, verde e preto
Esta obra opera uma investigação material dos fundamentos da fotografia, colocando em questão: luz, suporte e aparelho. Dessa operação, resulta não uma imagem representacional, mas um registro de condições de uma pictorialidade que se materializa como sensação pura, anterior à figuração.
A série constitui um protocolo experimental inspirado pela filosofia de Vilém Flusser. Ela encena, literalmente, o "jogo contra o aparelho" flusseriano, forçando o dispositivo a funcionar no limite radical de sua própria programação. A analogia com o olhar miope.
O método é rigoroso: as capturas são realizadas in situ, sob condições ambientais variáveis, e preservam integralmente seu estado bruto de saída. A recusa a qualquer pós-processamento ou edição é um imperativo ético e conceitual do trabalho.
São vestígios fotossensíveis de ambiência, que interrogam menos o quê da fotografia e mais o como de sua capacidade de registrar estados de presença e de perceber, para além da visão, através da pura exposição.
Imagem desfocada com cores predominantes escuras e claras, sem detalhes visíveis.
Imagem muito borrada com cores verde, amarelo e preto, sem detalhes visíveis.
Imagem com efeito de desfoque suaves e luz difusa formando círculos de luz.
Imagem com cores predominantemente verdes, de forma indefinida e sem detalhes claros
This work conducts a material investigation into the foundations of photography, calling into question light, support, and apparatus. From this operation emerges not a representational image, but a record of conditions: a pictoriality that materializes as pure sensation, prior to figuration.
The series constitutes an experimental protocol inspired by the philosophy of Vilém Flusser. It literally enacts the Flusserian "game against the apparatus," forcing the device to function at the radical limit of its own programming, an idea aligned with the analogy of the myopic gaze.
The method is rigorous: captures are made in situ, under variable environmental conditions, and are preserved entirely in their raw output state. The refusal of any post-processing or editing is an ethical and conceptual imperative of the work.
They are photosensitive traces of ambiance, which interrogate less the what of photography and more the how of its capacity to register states of presence and to perceive, beyond vision, through pure exposure.

12.
estado líquido da borboleta / tectonicismo.
liquid state the butterfly / tectonicism.

2024 / videosíntese / som (09’07").
video synthesis / sound (09’07").

Este trabalho originou-se de uma provocação do curador Marcelo Salles: um convite para a criação de uma peça em vídeo. O processo criativo desviou-se do esperado, dando origem a um trabalho sonoro. A faixa de áudio tornou-se a gênese da obra.
A composição sonora foi construída através da programação e de processos generativos. Desdobra-se no tempo com transformações mínimas e graduais, demandando uma escuta atenta e imersiva. Essa abordagem gera uma narrativa sutil, que menos conta uma história e mais induz uma sensação de travessia.
O vídeo foi desenvolvido em paralelo a essa paisagem sonora, partilhando de sua lógica de ação mínima e de sua atmosfera de trânsito. Criado a partir de experimentações em vídeo-síntese, a parte visual não ilustra o som, mas com ele co-existe e se integra, formando um organismo audiovisual indivisível. Ambos os elementos operam na mesma frequência de deslocamento e mutação.
Dessa forma, a obra realiza uma inversão do processo habitual: o vídeo, pedido inicial, tornou-se a extensão material de uma ideia que primeiro se formulou como som. O resultado é uma experiência que questiona as hierarquias entre meios e se consolida como um todo sensorial.
Esta obra participou da exposição Eu Busco A Comunicação, Casa Contemporânea, 2024.
This work originated from a provocation by curator Marcelo Salles: an invitation to create a video piece. The creative process diverged from the expected, giving rise to a sonic work. The audio track became the genesis of the piece.

The sound composition was built through programming and generative processes. It unfolds in time with minimal and gradual transformations, demanding attentive and immersive listening. This approach generates a subtle narrative that tells a story less and induces a sensation of passage more.

The video was developed in parallel to this soundscape, sharing its logic of minimal action and its atmosphere of transit. Created from experiments in video synthesis, the visual component does not illustrate the sound but rather coexists and integrates with it, forming an indivisible audiovisual organism. Both elements operate at the same frequency of displacement and mutation.

Thus, the work realizes an inversion of the usual process: the video, the initial request, became the material extension of an idea that first formulated itself as sound. The result is an experience that questions hierarchies between mediums and consolidates itself as a sensory whole.

This work was part of the exhibition Eu Busco A Comunicação (I Seek Communication), Casa Contemporânea, 2024.

13.
peça para quarteto de osciladores senoidais pré-programados.
piece for quartet of pre-programmed sine wave oscillators.

2025-26 / som (??’??").
sound (??’??").

Esta obra é uma investigação sobre o controle, o acaso e a simbiose com a máquina, concebida a partir do encontro entre a filosofia de John Cage, particularmente suas reflexões sobre composição aleatória e a estética minimalista e meditativa da compositora Eliane Radigue.
Construída na plataforma de programação Max/MSP, a peça é um sistema generativo. A execução é sempre única: a cada apresentação, os osciladores geram novas interações, tornando cada instância da obra irrepetível. O artista atua como um designer de possibilidades, cedendo a autonomia de execução ao aparato técnico.
A estrutura dialoga com a formação do quarteto de cordas, porém, em uma transposição não convencional. Quatro osciladores são programados para operar dentro das tessituras do contrabaixo, violoncelo, viola e clarinete. Essa abordagem cria um "quarteto espectral", onde a identidade dos instrumentos é abstraída em puros campos de frequências senoidais.
A obra se realiza plenamente como instalação sonora ou experiência expositiva, adaptando-se acusticamente a cada espaço que ocupa. Como registro material de cada exposições, um compacto de vinil é gravado ao final de cada montagem, funcionando como um documento de uma performance generativa efêmera.
Traçado branco de linhas sobre fundo preto, formando uma figura abstrata no centro da imagem.
Tela de um sintetizador de áudio com vários controles, módulos de frequência, volume, delay, distorção, feedback, além de gráficos de ondas sonoras e um ícone de alto-falante.
This work is an investigation into control, chance, and symbiosis with the machine, conceived from the encounter between the philosophy of John Cage, particularly his reflections on aleatoric composition, and the minimalist and meditative aesthetic of composer Eliane Radigue.

Built on the Max MSP programming platform, the piece is a generative system. Each performance is unique: with every presentation, the oscillators generate new interactions, making each instance of the work unrepeatable. The artist acts as a designer of possibilities, ceding executive autonomy to the technical apparatus.

The structure engages with the formation of the string quartet, yet through an unconventional transposition. Four oscillators are programmed to operate within the tessituras of the double bass, cello, viola, and clarinet. This approach creates a "spectral quartet," where the identity of the instruments is abstracted into pure fields of sinusoidal frequencies.

The work fully realizes itself as a sound installation or exhibition experience, adapting acoustically to each space it occupies. As a material record of each exhibition, a vinyl single is recorded at the end of each setup, functioning as a document of an ephemeral generative performance.

14.
a questão da paisagem, andei tanto para voltar às serras de onde nasci.
the landscape issue, I walked so far to return to the mountains where I was born

2025 / imagem impressa sob papel algodão (100x80cm).
image printed on cotton paper (100x800cm).

Imagem abstrata com cores quentes e frias desfocadas, incluindo tons de amarelo, verde, azul, rosa e laranja.
O trabalho investiga a materialidade do sinal de vídeo e sua capacidade de constituir forma através do uso da vídeosíntese.
O processo é, em sua essência, generativo e não-representacional. A imagem final não ilustra um conceito prévio, mas emerge da exploração sistemática dos parâmetros do sintetizador. Nesse sentido, a "autonomia" da máquina é menos uma ficção e mais o resultado de um diálogo com um sistema fechado de possibilidades, onde o artista atua como um operador de parâmetros dentro de uma lógica de causa e efeito.
A construção da imagem final se dá através de uma sobreposição de fotogramas, uma espécie de geologia da imagem. Essas inúmeras camadas temporais, quando justapostas, condensam-se em uma única imagem estática de grande densidade. O resultado é um plano que, paradoxalmente, contém e cristaliza o tempo de sua própria geração, tornando visível a duração e a transformação inerentes ao processo sintético.
The work investigates the materiality of the video signal and its capacity to constitute form through the use of video synthesis.
The process is, in essence, generative and non-representational. The final image does not illustrate a preconceived concept, but emerges from the systematic exploration of the synthesizer's parameters. In this sense, the "autonomy" of the machine is less a fiction and more the result of a dialogue with a closed system of possibilities, where the artist acts as a parameter operator within a logic of cause and effect.
The construction of the final image occurs through a superimposition of frames, a kind of image geology. These innumerable temporal layers, when juxtaposed, condense into a single static image of great density. The result is a plane that, paradoxically, contains and crystallizes the time of its own generation, making visible the duration and transformation inherent to the synthetic process.

15.
estudo para piano e pesos.
study for piano and weights.

2025 / som (8’30").
sound (8’30").

Estudo para Piano e Pesos investiga a materialidade do piano através de algoritmos e espectros. A obra não é escrita para o instrumento, mas programada a partir dele, utilizando código para gerar e organizar gestos entre a precisão mecânica e a imprevisibilidade orgânica.
Em paralelo, um campo sonoro difuso é construído com sonoridades híbridas que confundem a identificação entre sopros e cordas. Essas texturas são exploradas por seus harmônicos, ruídos e ressonâncias, funcionando como uma massa sonora que envolve e contrapõe a articulação puntual do piano.
A estrutura da peça navega entre duas forças complementares: a organização serial, que confere uma lógica interna de alturas e relações intervalares e a escuta espectral, que direciona a atenção para a decomposição, a fusão e a transformação lenta dos componentes do som. Esse diálogo gera uma forma tensa e respirante, onde blocos harmônicos densos alternam-se com paisagens esparsas e pontuadas, criando uma percepção de peso, suspensão e desequilíbrio.
Study for Piano and Weights investigates the materiality of the piano through algorithms and spectra. The work is not written for the instrument, but programmed from it, using code to generate and organize gestures between mechanical precision and organic unpredictability.

In parallel, a diffuse sound field is built with hybrid sonorities that blur the identification between winds and strings. These textures are explored for their harmonics, noises, and resonances, functioning as a mass of sound that envelops and contrasts with the punctual articulation of the piano.

The structure of the piece navigates between two complementary forces: serial organization, which provides an internal logic of pitches and intervalic relationships, and spectral listening, which directs attention to the decomposition, fusion, and slow transformation of the components of sound. This dialogue generates a tense and breathing form, where dense harmonic blocks alternate with sparse and punctuated landscapes, creating a perception of weight, suspension, and imbalance.

16.
4 violinos para a despedida.
4 violins for departure.

2025 / som (23’09").
sound (23’09").

Trata-se de uma peça de ficção sonora que expande o texto literário homônimo em uma narrativa acústica de 23 minutos e 09 segundos. A obra estrutura-se como uma trilha para um filme interno, composta por sete cenas-movimentos que traduzem em som estados de espera, memória corroída e partida iminente.
O material bruto são gravações de violino, submetidas a técnicas de processamento que servem para corroer a identidade do instrumento. O violino, assim, oscila entre sua função tradicional, criando harmonias, e uma condição dissonante e corpórea, onde se transforma em ruído e incômodo.
Essa dicotomia sonora espelha os dualismos do texto: a lógica obsessiva da repetição contra a angústia do indeterminado. A obra não ilustra o texto, mas habita sua atmosfera. O título alternativo, étude au départ, sugere o peso oceânico da distância e a falta iminente. Da mesma forma, a peça sonora é um estudo sobre o desaparecimento: do som original, da narrativa linear, da própria figura do violinista, dissolvida nas camadas de sua própria gravação. É uma partida lenta, onde o que fica é o eco de um gesto que já não se pode nomear, tal como a lembrança de um cheiro ou a foto costurada no peito.
This is a piece of sonic fiction that expands the homonymous literary text into a 23-minute and 09-second acoustic narrative. The work is structured as a score for an internal film, composed of seven scene-movements that translate into sound states of waiting, corroded memory, and imminent departure.

The raw material consists of violin recordings, subjected to processing techniques that serve to corrode the instrument's identity. The violin, thus, oscillates between its traditional function, creating harmonies, and a dissonant, corporeal condition where it transforms into noise and discomfort.

This sonic dichotomy mirrors the dualisms of the text: the obsessive logic of repetition against the anguish of the indeterminate. The work does not illustrate the text but inhabits its atmosphere. The alternative title, étude au départ, suggests the oceanic weight of distance and imminent absence. Similarly, the sound piece is a study on disappearance: of the original sound, of linear narrative, of the very figure of the violinist, dissolved in the layers of their own recording. It is a slow departure, where what remains is the echo of a gesture that can no longer be named, much like the memory of a scent or the photograph sewn into the chest.
estudo para a partida
 
Há dois meses e um pouco mais, vinha de ocorrer um fato no mínimo curioso, precisamente há 64 dias. E contando.
O fato do ano ser bissexto o assustava menos, mas isso é assunto para outra hora.
Não eram os dedos que travavam ao lembrar de Prokofiev, mas sim a língua, que nunca o dizia correto, mas esse também não era o fato.
E sim que sonhava o mesmo sonho todas as noites. 
E sim que sabia, ao deitar, que sonharia o mesmo sonho todas as noites.
O prazo era indeterminado para que o ocorrido então se findasse. Era indeterminado até que, da noite para o dia, sem aviso prévio, (fim).
Como se nunca tivesse acontecido. Aliás, a vida é um pouco por aí. 
Aliás, como os dias quais todas suas posses se resumiam a um rádio à válvulas velhas, naquela trincheira.
 
Questionava as probabilidades de qualquer outra coisa lhe pertencer.
Já não lhe pertenciam mais: a baioneta, a mão esquerda, a maioria das memórias e as horas ímpares.
Haveria de se mudar no fim do mês. Já era um ano desde que mudou-se pra encruzilhada. A casa curta não era de ventos e o ar ali estagnava-se. Aliás, como naquela trincheira.
Estava em dúvida e/ou angústia;
Seriam suficientes três violinos para aquele: Estudo Sobre a Partida?
Não faltaria um, a dissonar do trio, a ser um pouco do contra? 
Assim como costumava ser.
De qualquer maneira, Estudo Sobre a Partida soaria melhor se tivesse nome em outra língua:
étude au départ tem mais peso, tem mais oceano entre, tem mais algo prestes a faltar. 
Aliás, como aqueles 64 dias e contando. Aliás, como naquela trincheira.
Tudo isso, deixaria saudades.
O céu enquadrava bonito dali
O queijo mofava bem dali.
Os piolhos-de-cobra viviam plenos dali. (Tinham nome e sobrenome).

Até o raio que os parta.
 
A foto que restara de você era de 31 anos atrás e a guardava costurada no peito. 
Desfiou o uniforme, esterilizou a agulha que remendava os colegas.
Eu ainda estava aqui e, você agora fazia mais parte do tempo e seus cabelos certamente estariam mais brancos. 
Sua pele teria mais manchas. A lembrança do seu cheiro era uma das poucas que ficara.
Sonhava o mesmo sonho todas as noites.
Aliás, como naquela trincheira.
Sonhava o mesmo sonho todas as noites.
E eu ainda estava aqui;
Sonhava o mesmo sonho todas as noites e,
Por mais que, mesmo assim, ainda não soubesse o que fosse,
Seus dedos ainda tocavam piano ao pegar no sono.
study for the departure
Two months and a little more ago, something at the very least curious had happened, precisely 64 days ago. And counting.
The fact of the year being a leap year frightened him less, but that is a matter for another time.
It wasn't his fingers that locked up when remembering Prokofiev, but the tongue, which never said it right, but that wasn't the fact either.
And yes, it was dreamed the same dream every night.
And yes, it was known, upon lying down, that it would dream the same dream every night.
The deadline for this occurrence to end was undetermined. It was undetermined until, overnight, without prior warning, (end).
As if it had never happened. In fact, life is a bit like that.
In fact, like the days when all his possessions amounted to an old valve radio, in that trench.
He questioned the odds of anything else belonging to him.
They no longer belonged to him: the bayonet, the left hand, most memories, and the odd-numbered hours.
He would have to move at the end of the month. It had already been a year since he moved to the crossroads. The short house was not of winds and the air stagnated there. In fact, like in that trench.
He was in doubt and/or anguish;
Would three violins be enough for that: Study on the Departure?
Wouldn't there be a lack of one, to dissonate from the trio, to be a bit contrary?
Just as he used to be.
Anyway, Study on the Departure would sound better if it had a name in another language:
étude au départ has more weight, has more ocean between, has more of something about to be missing.
In fact, like those 64 days and counting. In fact, like in that trench.
All this, he would miss.
The sky framed beautifully from there.
The cheese molded well from there.
The millipedes lived fully from there. (They had first and last names).
To hell with them all.
The photo that remained of you was from 31 years ago and he kept it sewn into his chest.
He unraveled the uniform, sterilized the needle that mended his comrades.
I was still here, and you now were more a part of time and your hair certainly would be whiter.
Your skin would have more spots. The memory of your smell was one of the few that remained.
The dream was dreamed the same dream every night.
In fact, like in that trench.
The dream was dreamed the same dream every night..
And I was still here;
The dream was dreamed the same dream every night and,
No matter what, even so, he still didn't know what it was,
Her fingers still played piano as she fell asleep.

17.
a cor do céu depois da chuva.
the colour of the sky after the rain.

“A Cor do Céu Depois da Chuva” é uma instalação audiovisual composta para duas telas e som 2.1. A obra está dividida em três partes: Enquanto (7’13”), O Entre / A Nuvem (3’16”) e Antes Que Novamente (1’00”). Ao longo desses três movimentos, percebe-se uma espécie de dissolução retiniana e auditiva. O primeiro e mais longo ato propõe uma oposição entre um som intensamente processado e uma imagem quase sem interferência. A base sonora origina-se de uma peça composta para piano, posteriormente retrabalhada por síntese granular e distorção.No segundo ato, a relação se inverte. O som se aproxima do instrumento original, enquanto a imagem começa a ser gerada por programação, com base na análise do campo harmônico da peça.O terceiro momento evoca o Quadrado Branco de Malevich, em que os próprios sons da sala passam a integrar a obra, até que o ciclo se fecha e a chuva recomeça.
Estação de trabalho com duas telas, uma pequena em uma mesa de madeira ao lado da parede, exibindo elementos gráficos em branco sobre fundo preto, e uma maior tela de TV ou monitor parcialmente visível ao lado, também exibindo elementos gráficos.
Tela de televisão exibindo uma imagem abstrata preta e branca, apoiada no chão de madeira e encostada na parede.
“The Color of the Sky After the Rain” is an audiovisual installation composed for two screens and 2.1 sound.
The work is divided into three parts: While (7’13”), The Between / The Cloud (3’16”), and Before It Again (1’00”).
Throughout these three movements, one perceives a kind of retinal and auditory dissolution. The first and longest act proposes an opposition between an intensely processed sound and an image with almost no interference. The sonic 
 basis originates from a piece composed for piano, later reworked through granular synthesis and distortion.
In the second act, the relationship is inverted. The sound moves closer to the original 
 instrument, while the image begins to be 
 generated through programming, based on the 
 analysis of the harmonic field of the piece.
The third moment evokes Malevich’s White Square, in which the sounds of the room itself become part of the work, until the cycle closes and the rain begins again.
Imagem abstrata com efeito de spray ou poeira, com tons de azul escuro para o lado esquerdo e branco para o lado direito.
Tela de televisão com uma imagem em preto e branco de nuvens no céu e um objeto escuro no centro.

18.
a luz acabava enquanto eu dormia e não sei se era um sonho.
the light has faded while I was sleeping and I don’t know if it was a dream.

Diagrama de disposição de elementos em um espaço de sala, incluindo caixas de som de pedestal, cadeiras, uma caixa de som de chão e uma lâmpada fluorescente. Texto explicativo detalha a disposição dos itens na sala.
Origina-se da materialização de um sonho: um espaço branco e ilimitado onde, num breve instante de consciência de si, a luz se extingue, mergulhando a percepção no vazio.
O trabalho organiza-se como uma trilogia acústica, onde cada camada corresponde a um estado psíquico do sonho.

Luz: Uma composição para sintetizadores que estabelece o campo sonoro inicial, representando a pureza abstrata e atemporal do espaço branco.
Consciência: Uma camada construída com room tones, os ruídos ambientais mínimos e quase subliminares de uma sala, que materializa o momento de autorreflexão.
Escuridão: Uma composição para piano processado, que representa o colapso da percepção visual e a subsistência da memória sonora no vazio.

Um sistema de som quadrifônico distribui esses elementos no espaço. No centro, uma luz fluorescente vertical suspensa atua como um eixo paradoxal, interagindo com a trilha sonora ao acender e apagar conforme os momentos da peça. Quatro cadeiras, dispostas de costas umas para as outras, convidam a uma fruição introspectiva e solitária.
Originating from the materialization of a dream: a white and boundless space where, in a brief moment of self-awareness, the light extinguishes, plunging perception into void.
The work is organized as an acoustic trilogy, where each layer corresponds to a psychic state of the dream.

Light: A composition for synthesizers that establishes the initial sound field, representing the abstract and timeless purity of the white space.
Consciousness: A layer built with room tones, the minimal and almost subliminal ambient noises of a room, which materializes the moment of self-reflection.
Darkness: A composition for processed piano, which represents the collapse of visual perception and the subsistence of sonic memory in the void.

A quadraphonic sound system distributes these elements in space. At the center, a suspended vertical fluorescent light acts as a paradoxical axis, interacting with the soundtrack by turning on and off according to the moments of the piece. Four chairs, arranged back-to-back, invite an introspective and solitary contemplation.
Imagem em preto e branco de duas pessoas de frente, uma delas usando óculos. Uma delas está inclinada para frente, a outra também está próxima, criando uma composição próxima e íntima.
Cadeiras e objetos em uma sala com iluminação suave